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O retorno perigoso da magreza extrema

Foto do escritor: Sabrina Moreira
Sabrina Moreira
10 de dez. de 2025
6 min de leitura

Quando a busca por um corpo “saudável” ultrapassa os limites.


Desfile da MiuMiu Verão 2023. Créditos: Victor Virgile Gamma Rapho via Getty Images
Desfile da MiuMiu Verão 2023. Créditos: Victor Virgile Gamma Rapho via Getty Images

É extremamente comum que, ao entrar nas redes sociais, diversos conteúdos que incitem a magreza sejam entregues no feed pelo algoritmo. Seja por de posts “wellness” que mais parecem voltados ao corpo padrão do que à saúde, por trends “bobinhas” como a recente “magras, magras”, ou até mesmo através do impulsionamento do uso sem necessidade - algo válido de ressaltar - de medicamentos para doenças como a diabetes, que auxiliam no emagrecimento.


“Por mais que hoje as pessoas falem mais sobre a diversidade de corpos, diversidade racial, corpos magros e gordos, a gente ainda percebe, infelizmente, uma imposição do ideal de magreza, de um ideal desse corpo extremamente magro. Tanto que é perceptível que as marcas continuam dando preferência para as modelos muito magras”, comenta Paulo Debom, historiador e professor de moda.


Para estudiosos, isso não é algo inesperado ou novo, “O padrão estético é sempre inalcançável, e apesar de existir diversidade, ela só não é considerada. E é justamente essa idealização do padrão que provoca um mau estar tão grande na sociedade”, explica Laura Ferrazza, professora e historiadora de moda.


Infelizmente, esse padrão sempre inalcançável provoca reações extremas que trazem problemas sérios para a saúde, principalmente para mulheres, que são as mais atingidas. “Para os homens, o padrão sempre foi mais flexível. A cobrança em cima do corpo do homem ela é hoje menor e sempre foi menor”, explica Debom.


Segundo a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados, uma em cada vinte pessoas no Brasil sofrem de algum tipo de transtorno alimentar, e dentre os motivos pautados, um dos principais é a comparação que os jovens fazem entre si com perfis em redes sociais. Já a Associação Brasileira de Psiquiatria estima que mais de 70 milhões de pessoas no mundo possuam algum tipo de distúrbio alimentar, tornando toda a situação ainda mais perigosa e alarmante.


"Isso traz riscos à saúde de modo geral. Na saúde física, psíquica e emocional, assim como na social. Agente pode ver que, pessoas que começam nessa busca incessante pela magreza extrema, por esse padrão estético, são pessoas que tendem a ter comportamentos muito extremistas em relação à alimentação e exercício físico”, explica a nutricionista Thayane Fraga.

A endocrinologista Suzana Vieira explica que, esse tipo de magreza que as pessoas tentam buscar, espelhando-se no corpo de modelos e no padrão inalcançável da moda, só é obtido através de muita restrição alimentar. “Isso beira a anorexia. A pessoa se vê mais gorda do que é, faz muita atividade física, não se alimenta bem, usa anabolizantes… Depois ela vai perdendo massa óssea por conta da falta de nutrição e pelo bloqueio hormonal, devido às restrições.”


Mesmo com a informação de tantos malefícios, as pessoas ainda continuam impulsionando a exaltação à magreza nas mídias. “Quantas mulheres vão sofrer de anorexia, bulimia… Porque existe uma pressão para isso. Como também, nem se comparar o número de mulheres e o número de homens que fazem cirurgias plásticas. O número de mulheres é muito maior, porque a cobrança é muito maior”, analisa Debom.


“Apesar de termos um corpo, que é algo biológico, ele também é cultural. Até mesmo os nossos sentidos são construções da cultura, já que o que se enxerga, o que se escuta, tudo passa pelas lentes da cultura. Logo, o que é um corpo bonito, o que é um corpo feio, sempre vai passar pelas lentes da cultura”, complementa. Recentes tendências virais apenas reforçam o quão problemático a busca por um corpo padrão vem se tornando, como o uso de medicamentos para diabetes como o Ozempic, lançado em 2017 pela Novo Nordisk, que se tornou viral nas redes sociais e, atualmente, a empresa fabricante já se tornou a mais valiosa da Europa, variando apenas em alguns meses.


“Esse é um tratamento muito válido quando se tem uma avaliação médica criteriosa. Então, o paciente precisa estar com uma equipe multidisciplinar, e o tratamento não deve se concentrar apenas no uso da medicação”, diz Thayane. “Hoje em dia, a gente tem visto um uso indiscriminado [do Ozempic] de pessoas que não tem grau de obesidade, que querem perder 4, 2 quilinhos sem acompanhamento médico, sem indicação e, muitas vezes, sem estar em um tratamento”, complementa a nutricionista.


Olhando para a perspectiva das modelos, até mesmo mulheres que trabalham na moda plus size vem sentindo uma mudança drástica na maneira como o mercado se movimenta, principalmente considerando que a pouco tempo as mulheres plus size começaram a conquistar seu espaço dentro da indústria. “Eu percebo que muitas plus size estão querendo diminuir um pouquinho ou emagrecer definitivamente, sabe? Aquele orgulho de ‘me amar do jeito que eu sou’ deu uma morrida”, comentou Carla Manso, modelo plus size e empreendedora.


“Com certeza, de 2010 até hoje, nós notamos que surgiu mais representatividade. Seja no cinema, na televisão, nas revistas, na passarela, na própria internet, e isso ajuda muito para que, quem não é plus size, normalize o corpo plus size sem achar que a pessoa precisa emagrecer para se sentir feliz. Mas eu acho que isso vem diminuindo um pouco, e eu ainda sinto falta de algumas coisas, porque nós ainda temos algumas dificuldades, principalmente no Brasil, de ver, por exemplo, uma protagonista que seja gorda, principalmente se o tema do roteiro não estiver em torno desse tema”, complementa a modelo.


É claro que, quando falamos de saúde de fato, e não apenas de estética, nada deve ser extremo. Ou seja, a magreza extrema não deveria ser buscada, assim como manter-se no sobrepeso também deve ser evitado. “O que faz você querer comer? Qual é a sua dor? A ansiedade, uma perda, algo que você sofreu na infância ou uma dor que você teve na vida adulta? Eu, por exemplo, sofri violência sexual e eu certamente quero comer porque os homens olham menos para mim quando eu tô gorda. Isso é um fato”, afirma Carla.


De fato, vários distúrbios emocionais podem fazer com que as pessoas busquem a comida como uma maneira de lidar com seus sentimentos. Segundo uma equipe do Instituto Garvan de Pesquisa Médica, o sentimento de estresse anula a resposta natural do nosso cérebro à saciedade, fazendo com que o cérebro receba sinais de recompensa ininterruptos quando comemos alimentos mais palatáveis, o que provoca a pessoa a continuar comendo, mesmo sem a necessidade.


“Eu não vou ser hipócrita de falar que a nossa melhor versão é sempre a nossa versão maior, plus size e mais gordinha. Na maioria das vezes, a nossa melhor versão é quando a gente tá com peso menor por conta da disposição. Eu engordei um pouco agora e estou com dor no ciático, no quadril e no joelho, mas isso acontece quando você vai avançando na idade. Eu com 20 anos com esse peso não sentia isso, agora com 39, eu sinto”, comenta Carla.


Ainda assim, mesmo que estar acima do peso também seja um problema de saúde sério e que deve ser considerado e tratado, esse corpo não é exaltado. A última vez na história em que um corpo mais cheio foi considerado o padrão, foi no século XIX, na era vitoriana, quando as mulheres mais cheias eram consideradas mais saudáveis e pertencentes a famílias de maior status monetário. Ou seja, é sim um problema de saúde pública. Mas não é romantizado e almejado.


Mas porque isso acontece? Afinal, essa busca incessante por um corpo muito magro é comprovadamente prejudicial para a saúde. “Ao meu ver, tem a ver com a crise de várias coisas. É sobre uma crise econômica, cultural, política e social, e tudo ao mesmo tempo. O impacto de todas essas crises, onde nós vemos o modelo norte-americano ruindo e com problemas e muitas guerras em vários lugares, tem ligação com tudo isso”, explica Laura. “Essa questão da aparência, do corpo, ela é uma expressão de tudo o que está acontecendo. Então, nós estamos em um momento de crise, e querer retornar a essa estética é um sintoma”, finaliza a historiadora.


Olhando para a história da moda, isso facilmente se concretiza. Frequentemente a moda atua como um espelho do tempo no qual está inserida. No século XX, devido às Guerras Mundiais na Europa, o pós-guerra trouxe padrões estéticos de um corpo com mais curvas, como Marilyn Monroe, e isso aconteceu devido à fome que as pessoas passaram.


Agora, em um momento onde a sociedade se recupera da pandemia e passa por crises em diversos setores, assim como durante a crise de 2008 ou a Grande Depressão, quando a economia estava instável, a moda também abraçou tendências “seguras”. No fim, a volta dessa tendência estética se mostra um sintoma de uma sociedade em crise, que ainda enxerga os corpos, principalmente o feminino, como uma espécie de território utilizado para controle e validação. Romper esse ciclo exige um esforço múltiplo de marcas, sejam elas pequenas ou grandes, da mídia e de profissionais do setor que se comprometam com uma representação mais responsável e plural das mulheres dentro da moda.


“Eu acho que é algo bem ruim, esse retorno, mas não sei se ele vai retornar com tanta força quanto ele já teve. Há toda uma mudança na sociedade que eu gosto de pensar que acabe freando um pouco e observando com mais cuidado esse retorno”, finaliza Laura.

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