top of page

A moda ultrapassa a estética: O lado político das peças

Foto do escritor: Sabrina Moreira
Sabrina Moreira
10 de dez. de 2025
4 min de leitura

Para além da estética, a moda tem um papel essencial de

ferramenta política e cultural que é pouco explorada.


Dendezeiro apresenta a coleção Brasiliano 3 no SPFW N60. Foto: Divulgação/ Créditos: Danilo Grimaldi
Dendezeiro apresenta a coleção Brasiliano 3 no SPFW N60. Foto: Divulgação/ Créditos: Danilo Grimaldi

Para o senso comum, a moda sempre remete a estética, o que, em partes, não está errado. A moda é sim uma forma de estética, de ressaltar a beleza do indivíduo que a utiliza. No entanto, o que é facilmente esquecido, é que a moda vai muito além de ser uma peça bonita, sendo capaz de transmitir mensagens com teor político, exaltar culturas de várias origens e de se expressar individualmente.


“A moda é linguagem. Sempre foi usada para marcar presença política, resistir e reivindicar espaços. Hoje, estilistas, artistas e coletivos usam o vestir para denunciar o racismo, o machismo e desigualdades”, comenta Haynará Negreiros, historiadora e curadora de moda. “Escolher roupas, tecidos ou acessórios com histórias específicas é uma maneira de visibilizar ancestralidades, denunciar violências e propor outros imaginários possíveis. As nossas roupas comunicam, penso muito nisso quando uso meus turbantes, por exemplo”, complementa.


Um exemplo atual e de fácil associação desse papel político da moda pode ser visto no momento em que voltamos para a época das eleições presidenciais, em 2022. Era simples identificar os viés políticos através da vestimenta: quem usava vermelho, estava a favor do presidente Lula Inácio, e quem usava a camisa amarela do futebol brasileiro, estava a favor do ex-presidente Jair Bolsonaro.


Exemplos ainda mais recentes são os desfiles da marca baiana Dendezeiro e da marca mineira, LED, para a SPFW de 2025. Dendezeiro apresentou a coleção "Brasiliano3|", que fala sobre a Lei da Vadiagem, lei essa que punia quem escolhia se manter inativo mesmo sem ter uma renda, e segundo diversos pesquisadores e historiadores, a lei mantinha sob controle a população negra que havia obtido a alforria ou já tinha nascido livre. Apesar de ter sido revogada, o visual ajudava a ditar “quem era ocioso”, e ainda hoje esse mesmo pretexto serve como motivo de perseguição a corpos pretos e a manifestações culturais populares, como o funk.


Já a LED trouxe a SPFW60 o desfile “Barracão-Carnaval”, exaltando a cultura da festa através de peças conceituais, misturando a alfaiataria com peças casuais. Além disso, o desfile prestou homenagem à música popular brasileira, passando uma mensagem clara: a relevância de abraçar e exaltar a sua própria cultura.


Segundo Arianne Vitale, professora e pesquisadora de moda, “A moda é muito importante para construir identidade. O que a gente veste, é o que nós decidimos expor para o mundo. Na história da moda, principalmente falando do século XX e XXI, a moda realmente expõe algo muito autêntico e revolucionário nesse lugar de colocar o corpo em ação na sociedade, e esse corpo expressar algo além do comum.”


Ou seja, muito mais do que um simples tecido que nos veste, o poder que a moda carrega junto de si, é como o de uma segunda pele. Mas nessa pele, nós conseguimos mostrar de forma clara a nossa história, crenças, posicionamentos políticos e culturas.


“A moda pode ser potente nesse sentido, porque dialoga com o sensível, com o visual, com o desejo. Pode abrir portas para debates importantes fora dos espaços acadêmicos ou institucionais. Mulheres negras, pessoas trans, corpos dissidentes usam a moda para afirmar existências historicamente silenciadas. É ato político cotidiano”, afirma Haynará.


Projetos sociais como o Cerzindo nos mostram que a moda pode usar do seu papel cultural para auxiliar imigrantes na missão de se reestruturar dentro de um novo país. “A indústria têxtil, tradicionalmente, tem muito a ver com a migração”, explica Leila Stungis, coordenadora do Projeto Cerzindo. Utilizando cursos de estamparia, upcycling, costura, modelagem e tantos outros, além de auxílio social, o projeto visa ajudar imigrantes a se estabelecerem no país e ter sua fonte de renda através da moda.


“Nós começamos a receber pessoas que vinham de um regime análogo a escravidão na área da moda, que trabalhavam com produção e não viam a moda como expressão”, explica Stungis. “Uma coisa que a gente trabalha muito aqui é que você não deve seguir o ‘abandone sua tradição e venha ser um brasileiro’. Não! Pega o que você deixou para trás, me mostra aqui no seu presente e vamos criar juntos. Você não precisa esquecer a sua história, muito pelo contrário”, complementa Leila.


No fim, a moda como uma expressão política e cultural acontece todos os dias. E isso desde muito antes de entrar no armário do consumidor. Ela é uma ferramenta ampla, que carrega história desde o momento da criação, até o vestir e o comunicar.


Grandes nomes da moda, como a considerada mãe do punk e ativista, Vivienne Westwood (1941-2022), a estilista e defensora ambiental Stella McCartney, a brasileira que denunciou os horrores da ditadura após a morte de seu filho, Zuzu Angel (1921-1976), e o designer brasileiro e icônico Ronaldo Fraga são exemplos de grandes pessoas dentro da indústria da moda que reconheceram esse poder, e escolheram utilizá-lo de forma consciente.

Comentários


bottom of page