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Como se costura uma democracia

Foto do escritor: Sabrina Moreira
Sabrina Moreira
10 de dez. de 2025
3 min de leitura

Assim como na moda, o segredo para a política está na medida e na coragem de desmanchar pontos que não servem quem está vestindo.



Entre os pensamentos que permeiam a minha mente inquieta, a momentos em que me permito imaginar cenários onde muitas questões do nosso dia a dia poderiam ser resolvidas se, quando exercemos nosso direito ao voto decidindo aqueles que ocuparão cargos de poder nos próximos anos, nosso povo decidisse optar apenas por mulheres com o conhecimento de costura.


Talvez dessa maneira os fios que regem o poder do nosso país estivessem menos embolados, e a política não estivesse em frangalhos. E sim, teriam de ser mulheres, pois apenas elas teriam culhão de aceitar quando erram a costura, ou empatia para ouvir uma história e entender como aquele ponto de vista enxerga o mundo. Apenas quem não nasce no privilégio, entende o cenário como um todo com mais facilidade. E dentro da política, isso deveria ser lei.


Se permita pensar: na Esplanada dos Ministérios, a ministra da Cultura andaria com linhas e agulhas dentro de sua bolsa, remendando as bordas desfiadas da memória nacional. Enquanto isso, a ministra da Educação teria a ciência de que as crianças são alfabetizadas da mesma maneira que se borda um tecido, com delicadeza, repetição e firmeza em cada ponto. Claro, a ministra da Justiça teria uma linha reta em suas mãos, e o ponto invisível seria o seu foco: o tipo de pessoa que costura sem puxar demais de um lado só, já que sabe muito bem que esse ato pode ser prejudicial para o trabalho como um todo.


“Mas e a ministra da Economia?” você me pergunta. Ela saberia que não se corta um tecido antes de medí-lo corretamente! E não apenas isso, seria uma mulher que, no lugar de focar no tecido importado e que mais favorece quem não aprecia o nacional, olharia com mais carinho para a chita e o suor local, que produz um tecido tão bom quanto. Inteligente ao ponto de reconhecer que metas inflacionárias não resolveriam os problemas, mas sim elásticos que esticam sem arrebentar quem já vive apertado, e impostos com zíperes para abrir apenas nos momentos necessários.


No Palácio do Planalto a alfaiataria seria sob medida. Nada de gabinetes gigantescos para que não usufrui do poder em prol da população, nem discursos compridos demais espalhados pelo chão. Haveria bainhas onde hoje sobram promessas, e ajustes onde falta coerência.


Com essas profissionais no poder, é claro que teríamos milhares de especialistas em remendos no nosso legislativo: elas saberiam exatamente onde reforçar o tecido social que rasgou, ou onde aplicar a entretela para estruturar políticas frágeis. Cada lei seria pensada como uma roupa de festa. Demoram para serem feitas, mas no momento em que estão prontas, fazem com que todos se sintam incluídos na celebração. E se alguém ousar descosturar os direitos que foram conquistados pelo povo, logo vem alguém com uma agulha certeira.


Nesse governo imagético, a moda não seria mais apenas vaidade, e sim linguagem. Discurso político.


Os uniformes distribuídos nas escolas seriam feitos com dignidade, respeitando a diversidade dos corpos das crianças. Nenhum desfile teria que esperar as Semanas da Moda para acontecer, já que os trens, terreiros e favelas seriam a passarela: mostrando que a elegância não mora na etiqueta, mas sim na postura de quem não abaixa a cabeça.


Quem sabe assim a presidenta entenderia que governar um país é como criar um vestido do zero para um povo inteiro: exige precisão no corte, e a pressa apenas causa furos no dedo. Afinal, não se faz um país na base do molde pronto, é preciso tirar medidas, provar no corpo do povo, ajustar com paciência, e se não servir, desmanchar a costura e fazer de novo. Ponto a ponto, sem esconder o avesso. Apenas quem entende a arte de costurar iria ver que, para fazer com que todos caibam, o segredo não está no tecido escolhido, mas sim na medida.


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