O etarismo da moda revela o medo de envelhecer
Em pleno 2025, a moda ainda insiste em ignorar mulheres maduras.
Mesmo em um momento onde se discute diversas pautas de relevância da moda envolvendo a representatividade, ainda é extremamente comum que, ao se deparar com publicidades de moda, desfiles, ou até mesmo ao ir em lojas de roupas, a variedade de peças feitas para mulheres mais velhas é escassa ou até nula, e a presença de mulheres com mais de 45 anos começa a declinar rapidamente.
De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), a quantidade de idosos acima de 60 anos chegará a dois bilhões até 2050. Ainda assim, segundo o estudo Elas 45+, realizado pela Eixo Estúdios, 83% das mulheres brasileiras acima de 45 anos não se sentem representadas através das marcas de moda, ocupando a segunda pior posição no ranking de percepção de representatividade, perdendo só para a indústria da beleza.
“A população 50+ é grupo demográfico significativo, ativo e com poder de consumo. Então, temos um paradoxo, porque ao mesmo tempo que essa mulher está aí e ela tem poder de consumo, as marcas não conseguem criar conexões, então ela não se vê representada”, diz Monayna Pinheiro, professora de moda e estilista.
Isso fica ainda mais evidente quando até mesmo mulheres do meio da moda se sentem dessa maneira. “Existe uma sensação clara de invisibilidade quando passamos dos 45 ou 50 anos. Muitas campanhas voltadas a mulheres maduras ainda usam modelos de 20 e poucos anos, sem conexão com a realidade do público-alvo”, comenta Cristina Leite, modelo e 1° candidata ao Miss Brasil com mais de 50 anos.
Em uma pesquisa online levantada através do Google Forms, das 14 mulheres que responderam, 50% já presenciaram algum tipo de discriminação por idade na maneira como a indústria da moda se dirige as mulheres, enquanto outras 42,9% tem a mesma sensação, mas não sabem nomear se foi etarismo.
Ainda segundo a pesquisa, 92,9% das mulheres que responderam afirmaram ter notado uma valorização excessiva da juventude pela indústria, e 78,6% consideram que esse movimento de valorização da juventude apenas reforça estereótipos negativos em relação ao envelhecimento, afetando a autoestima e a maneira como as mulheres enxergam a si mesmas com o passar dos anos.
Segundo Monayna, isso está relacionado a vários fatores, como questões históricas do patriarcado e papéis de gênero, onde a mulher sempre foi associada à maternidade e à juventude pela fertilidade. Também pela própria ideia da beleza, colocando o envelhecimento como uma perda, e até mesmo por questões médicas, que colocam a menopausa como um declínio feminino.
Para Cristina, “a indústria insiste em vender uma ideia 22 ultrapassada de que só a juventude é sinônimo de beleza e poder de consumo, mas isso não reflete mais a realidade. Hoje, quase 11% da população brasileira tem mais de 65 anos, e a expectativa de vida cresce a cada ano”, e complementa que “o principal preconceito é acreditar que mulheres maduras não vendem, não geram desejo ou impacto”.
Apesar de algumas iniciativas, como o manifesto de Cristina “Nós Não Somos Invisíveis” com outras modelos, a participação da modelo Carmen Dell’Orefice, de 85 anos, encerrando o desfile de Guo Pei na Semana de Alta-CosturadeParis, a moda ainda se movimenta lentamente para incluir esse público. “As marcas precisam contratar modelos maduras de forma natural, sem que isso seja exceção, e ampliar a presença desse público em campanhas, concursos e passarelas. Nós também precisamos de políticas de inclusão com o selo Age Friendly. E, acima de tudo, reconhecer a força das prateadas. Nós somos consumidoras e queremos nos ver representadas. Esse é o futuro inevitável da moda e da beleza”, finaliza Cristina.



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