A indústria têxtil cresce sem medir o custo ambiental
Ficando atrás apenas da indústria petrolífera, a indústria têxtil é a 2° maior
poluidora do planeta, e muito dessa poluição acontece no seu descarte.

A indústria da moda é gigantesca, e grande parte da sua relevância é devido ao fato de ser algo essencial para a sociedade. Afinal, ninguém sai de casa sem roupas. Consequentemente, o impacto dessa indústria também é descomunal, e os dados se mostram cada vez mais preocupantes. Segundo uma pesquisa do Sebrae, de abril de 2023, apenas no Brasil, cerca de 170 mil toneladas de roupas são feitas durante o ano. No entanto, apenas 20% das peças são recicladas ou reaproveitadas. Ao observar uma escala global, em 2024 a Fundação Ellen MacArthur constatou que 80% dos itens que são descartados vão para queima, aterros sanitários ou são simplesmente largados no meio ambiente, o que é uma problemática colossal.
“[No Brasil] estima-se que menos de 1% das roupas usadas são recicladas ou têm algum tipo de aproveitamento de forma adequada”, afirma Ednilson Vieira, professor de gestão ambiental na USP. “O problema do descarte de roupas e resíduos têxteis está cada vez maior, principalmente por causa das grandes empresas de fast fashion. Essas empresas produzem roupas em grande quantidade, com preços baixos e pouca durabilidade, o que faz com que as pessoas comprem mais e joguem fora mais rápido. Com isso, toneladas de restos de tecidos e roupas vão parar nos lixões, são queimadas ou acabam poluindo rios e o solo”, explica a professora de moda e doutora em ciência ambiental, Patrícia Muniz.
Ao observar o estilo de produção fast fashion, que visa uma larga e rápida produção de peças de baixo custo, a qualidade e a durabilidade deixa de ser algo almejado, principalmente considerando o impulsionamento do consumo desenfreado e da substituição rápida das peças. Tudo isso impacta diretamente no meio ambiente e nas pessoas que trabalham no setor, já que, de acordo com o Dossiê Escravo, nem pensar! Trabalho escravo e migração internacional, (Repórter Brasil, 2024), de 2010 a 2023, 677 pessoas foram escravizadas no setor apenas no Brasil, o que é outro recorte alarmante.
“O modelo fast fashion é, sem dúvida, o principal motor do descarte em massa de roupas. Esse sistema mudou nosso jeito de consumir moda: a produção acelerada, as peças de baixa qualidade e os preços baixos estimulam as pessoas a comprarem muito mais roupas do que antes e a descartarem rapidamente. Hoje, diversos estudos apontam que as roupas são usadas menos vezes e vão parar no lixo em pouco tempo”, explica Muniz.
Para Ednilson “Existe essa moda descartável, como uma coisa que passa. Cada temporada é uma cor, são várias tendências. E a tendência do ano passado já é obsoleta para esse ano. Então, para muitas pessoas que têm poder aquisitivo, a moda vai criando novas necessidades. Mas ela não olha tanto para a questão do descarte também, está sempre olhando para uma questão mais monetária.”
Em um monitoramento anual divulgado pelo Global Fashion Agenda em 2024, com base em dados da Cascale, as emissões de gases de efeito estufa do setor têxtil totalizaram 0,879 gigatoneladas em 2022, representando por volta de 1,85% das emissões globais de GEE. Dentro das estimativas, se as tendências atuais persistirem, as emissões poderão atingir 1,243 gigatoneladas até 2030.
Sobre a liberação de gases de efeito estufa após o descarte das peças em aterros e lixões, a especialista em gestão de resíduos sólidos e engenheira ambiental, Patrícia de França, explica que “As roupas produzidas com fibras naturais, são constituídas por matéria orgânica, formada principalmente por compostos de carbono. Quando esses materiais são descartados e decompostos, o resultado é a geração de biogás, compostos por dióxido de carbono e metano, principalmente. O metano é um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento global superior ao do CO₂, o que torna o descarte inadequado de resíduos têxteis um fator relevante.”
Mesmo com um cenário negativo, Patrícia de França explica que “A reciclagem de tecidos em larga escala é muito viável. Grandes empresas já estão neste ramo. Um exemplo é a empresa Retalhar. O maior desafio é a indústria se engajar nesta proposta. O consumidor já está mais consciente, há muitos bazares, doações, o que precisamos atingir é quem fabrica.”
Buscando mitigar os efeitos negativos ambientais causados pelo descarte têxtil, a Retalhar, uma das pioneiras Empresa B (modelo de negócio de desenvolvimento social e ambiental) que trabalha com gestão de resíduos têxteis, atua através da economia circular e da logística reversa. Jonas Lessa, um dos fundadores e CEO da Retalhar, explica que, inicialmente, a ideia foi desenvolver peças de upcycling. “Hoje você manda um material têxtil para um aterro sanitário, fica no máximo R$ 1 por quilo. Então, quando a gente apresentava a ideia, todo mundo se apaixonava. Aí mandava o orçamento e as pessoas sumiam, ou quem era sincero falava: ‘Não tenho como.’”
Atualmente, a Retalhar é um exemplo de que é possível realizar a gestão têxtil, evitando que o material vá parar em lixões ou aterros através da logística reversa e da economia circular.



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